Livro de Novembro

Quanto ao futuro, Clarice

Quanto ao futuro, Clarice

Uma reunião de ensaios escritos por especialistas, abordando diversas temáticas do universo ficcional de Clarice Lispector (1920-1977), depoimentos de suas contemporâneas e leitoras, além de fotografias inéditas celebram e atualizam neste livro a obra e a trajetória desta que é a maior escritora brasileira de todos os tempos. 

Mais do que homenagear Clarice no ano de seu centenário, o objetivo da edição é apresentar uma série de leituras capazes de oferecer novas interpretações e perspectivas sobre a obra da autora que legou verdadeiros clássicos da literatura brasileira, como Paixão segundo G.HA hora da estrela e Perto do coração selvagem, uma produção permeada de visões filosóficas, arrebatamento e múltiplos sentidos.

Para isso, reuniram-se aqui grandes especialistas em diferentes aspectos da escrita clariciana, que reafirmam e atualizam a força dessa autora aberta a novas descobertas de leitoras e leitores de hoje, e do futuro. Como afirma o organizador Júlio Diniz: “Não se pretendia falar de Clarice como um monumento literário, aprisionado a um passado glorioso, nem tratar a sua obra como um arquivo já constituído. Queríamos celebrar a voz viva, presente e potente desta nordestina-ucraniana-judia-carioca-passageira-do-mundo, que marca em definitivo a literatura e a cultura em língua portuguesa no século XX.” 

Autoras e autores Ana Kiffer, Antoneli Matos Belli Sinder, Beatriz Damasceno, Elizama Almeida, Evando Nascimento, Florencia Garramuño, João Camillo Penna, Júlio Diniz, Lucia Helena, Lúcia Peixoto Cherem, Magdalena Edwards, Marcela Lanius, Margarida de Souza Neves, Maria Bethânia, Maria Clara Bingemer, Marina Colasanti, Nádia Battella Gotlib, Nélida Piñon, Roberto Corrêa dos Santos, Silviano Santiago, Veronica Stigger, Vilma Arêas e Yudith Rosenbaum.

Trechos

“Conhecia alguns de seus gostos, não porque ela os entregasse, mas porque a observava. Sabia que prezava sua beleza, porque nunca a vi sem maquiagem, ou despenteada, ou sequer mal vestida. Sabia que gostava de acordar e fumar um cigarro na janela, forma de assimilar o dia e debruçar-se sobre a vida. Sabia que ia embora dissesse em entrevistas que não estava lendo nada – porque quando íamos visitá-la havia sempre livros esquecidos numa poltrona ou sobre algum móvel. Sabia que. considerava a escrita um fardo, mas que, quando porventura não conseguia escrever, entrava em desespero e telefonava para os amigos.Mas nunca soube o que ela pensava de fato, ou só o soube através da leitura dos seus livros.”
– Marina Colasanti

 

“Seu rosto, embora atento, revestia-se às vezes de uma neblina que a arrastava para longe. Por tal razão, em sua casa, cedíamos ao peso da vida enquanto tomávamos café e ela fumava, com Ulisses, o amado cachorro, à espreita da guimba que depositaria no cinzeiro. Ao longo dos dezoito anos de amizade, falando-nos diariamente, Clarice aportava-me benesses, júbilo, belos presságios. Eu pensava que estaria por muito tempo atada à eternidade terrena. No entanto, partiu cedo e não me conformei. Nossa amizade deveria ter durado mais que nós.”
– Nélida Piñon