A HISTÓRIA DOS VERTEBRADOS
Mar García Puig
No dia em que deu à luz seus filhos gêmeos, Mar García Puig enlouqueceu. Neste mesmo domingo, além de mãe, ela também se tornava deputada eleita para o Congresso espanhol, num momento de grande fervor político no país.
“Quando a comitiva de médicos desapareceu, revelou-se para mim uma realidade sobre a qual não tinha pensado: eu dera à luz um mundo novo, porque desapareceu aquele em que meus filhos não existiam, e hoje tudo começava. O parto abriu a porta que conecta o ser e o não ser, a vida e a morte, a luz e a escuridão, e agora eu nunca mais poderia fechá-la.”
Em A história dos vertebrados, Mar García Puig parte de sua própria experiência para construir um impressionante panorama histórico e literário da relação entre maternidade e saúde mental. Nessa travessia pela arte, literatura, mitologia e pela história da medicina, se misturam trajetórias e vozes de outras mulheres, conhecidas ou não, compondo um inventário crítico e tocante dos discursos sobre o corpo feminino e o papel da mãe através do tempo.
Ao investigar essa vivência radical, da função materna e da loucura, e suas repercussões na vida das mulheres, o livro se aproxima de uma história mais ampla, em que ciência, moral e política participam da construção do que se entende por maternidade.
Tradução: be rgb
“Na cozinha do patriarcado, as mulheres nunca poderão encontrar as quantidades certas dos ingredientes da boa maternidade.”
ORELHA
Delirium. Aprendo, com Mar García Puig, que a palavra significa “fora do sulco”: delirante seria aquele incapaz de traçar uma linha reta no chão. E ela confessa sua dificuldade para traçar uma linha reta no solo branco da política.
No mesmo dia em que dá à luz os filhos gêmeos, Puig é eleita deputada na Espanha. Ainda neste dia, sente os primeiros sintomas da ansiedade puerperal que levaria a um quadro complexo de hipocondria. Mas a expressão saúde mental, asséptica, não a representa. “Já não há força criadora na loucura, nem energia mobilizadora na tristeza, nem rebeldia na angústia”. Se a doença psíquica pode ser entendida como uma outra linguagem para além do logos, a ausência de palavras torna-se política para Puig, que nos entrega, neste livro, um amoroso trabalho arqueológico em que resgata a intrincada história que une mulheres e loucura. Mais que isso: busca ouvir e transmitir sua múltipla voz.
Nesse desejo enciclopédico de dar sentido às experiências, a autora nos traz um exemplo curioso evocado pelo naturalista Piotr Kropotkin que se contrapõe à evolução das espécies como luta mútua: as formigas. De repente, olho de outra forma esses insetos que alimentam as companheiras com substâncias que expelem do estômago, a partir de um órgão digestivo dedicado à partilha. Formigueiro, metáfora para centros urbanos, grandes e impessoais. Mas o “exército de formigas” que somos, no lugar de alienação e disciplina, me fazem pensar em cuidado. Fazer política – como cuidar de um filho – é também narrar de um outro modo a história. Porque é ele, o cuidado (e não uma razão descarnada) o centro da vida comum.
Mônica de Aquino
SOBRE A AUTORA
Mar García Puig (Barcelona, 1977) é escritora, editora e tradutora, formada em Filologia e Literatura Inglesas pela Universidade de Barcelona, com mestrado em Linguística. Entre 2016 e 2023, foi deputada no Parlamento espanhol pelo partido Podemos e atuou como porta-voz da Comissão de Cultura. Publicou artigos em diversos veículos nacionais, como El País e La Vanguardia, e participou de várias obras coletivas de ficção. A história dos vertebrados, seu primeiro livro, foi traduzido em diversos países e ganhou os prêmios Cidade de Barcelona e Vanity Fair de autora revelação.
