Livro do Mês

Se não souber o que fazer

Carina Bacelar

 

O que acontece quando a solidão nos tira de órbita?

Nos contos de Se não souber o que fazer, de Carina Bacelar, a noite e seus mistérios são a moldura para retratos de desejo, medo, violência e liberdade, que irrompem no cotidiano como forças capazes de tirar tudo do lugar. Uma menina descobre as consequências de ter um corpo próprio; uma mulher casada se apaixona por outra e precisa decidir o que fazer com o futuro que havia imaginado; uma mãe, entre o jantar da família e as lembranças do passado, percebe o que deixa para trás todos os dias — e o que gostaria de deixar. De diferentes maneiras, escapar das formas que lhes foram dadas é o que põe essas vidas em movimento.

Organizadas em torno de imagens da formação, degeneração e morte das estrelas, essas histórias aproximam a escala imensa do universo da experiência íntima de seus personagens. Mas aqui não há destino escrito no céu: há corpos que buscam, temem, ferem e são feridos, tentando inventar algum sentido para aquilo que lhes acontece.

Com uma escrita vertiginosa, física e marcada pelo humor, Carina Bacelar constrói um livro sobre os momentos em que já não é possível continuar sendo quem se era. E sobre aquilo que talvez reste quando não sabemos o que fazer. 


“Neste trabalho agudo de fabulação, Carina Bacelar passeia entre dicções, tensiona existências e tateia a linguagem do outro como forma de acesso ao mistério de si. Um livro singular escrito por uma ficcionista que, comprometida com seu ofício, alcança com maestria tanto estrelas distantes quanto nossas minúsculas verdades íntimas.”

Renata Belmonte, escritora

“Um livro belíssimo em que a linguagem se estrutura com originalidade para dar conta da fúria da vida.”

Giovana Madalosso, escritora

 

Texto de orelha

Um grande livro de contos abastece pelo menos duas coisas em nós: o desejo pela próxima história e, ao fim, o vício em vida humana. Assim me senti durante e depois de ler este livro de Carina Bacelar, sendo tragada pela linguagem destemida e humorada, ora caindo em becos inesperados, ora em esquinas tão próximas da minha casa. 

Os contos aqui são agrupados sob nomes de coisas do céu, como nebulosas e gigantes vermelhas. Mas as histórias são feitas das coisas do chão: desejos que levam aos labirintos feitos de pistola, jaqueta jeans, batom craquelado. A poeira e o farelo por vezes nos lembram de olhar para onde estão os astros se movendo por afastamento, aproximação e colapso. E por aqui seguimos entre a festinha, o metrô e o ônibus noturno em fome de contato de amor ou sombra, no susto do acaso e do injusto, nos olhos do outro que rejeita, que machuca. 

“Para mim, literatura, arte, é você chegar muito perto, de uma maneira não lógica”, disse Elvira Vigna ao Jornal Rascunho. Desconfio que Carina também navegue a sua escrita por aí. Um livro que chega tão perto é um ato de coragem, é um estado inflamado de arte, até porque: vai que explode.

Carol Rodrigues 
Escritora e roteirista

Sobre A autorA

Carina Bacelar nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. Além de escritora, é redatora e jornalista, com passagens por veículos como O Globo, CBN e O Estado de S. Paulo. Seu primeiro livro de contos, As despedidas (Marisco Edições), foi lançado de forma independente e venceu o prêmio Mozart Pereira Soares, em 2023.

Foto: Simone Marinho