ANTIGONICK
ANNE CARSON
Em Antigonick, Anne Carson oferece uma tradução singular da tragédia clássica de Sófocles. Sem abrir mão da força do original, ela assume a liberdade para reinventar ritmos, imagens e vozes, aproximando um dos textos fundadores da literatura ocidental da sensibilidade contemporânea e preservando toda a intensidade do confronto entre a lei do Estado e a consciência individual.
A singularidade de Antigonick também está no humor e na ousadia dos comentários intercalados ao longo do texto. Nessa leitura, o luto e a responsabilidade moral de honrar a memória do irmão morto ocupam o centro da tragédia. Creonte, homem da ação e da palavra, é retratado como um tirano brutal e sanguinário, até uma reviravolta final.
Há ainda a aparição original do personagem Nick, presente já no título. Figura silenciosa, ele mede as coisas sem jamais deixar o palco. Seu nome evoca tanto o corte, a incisão, quanto o instante decisivo. Assim, com Anne Carson, a tragédia milenar ressurge com radicalidade política e surpreendente invenção poética.
Tradução: Julia Raiz
Texto de orelha
São diferentes os modos de falar de Anne Carson, mas me agarro à ideia de “impedir que você um dia perca seus gritos”, como ela declara na linha final da carta endereçada, como tradutora, a Antígona, a personagem mitológica feita por Sófocles para o amor, não para o ódio. Modos de falar como quem fala um ensaio, quem fala uma crítica, fala um poema, uma tradução. Se afastamentos e aproximações em relação a um modelo dão a real medida do que é novo, isso nem chega a ser um dilema para a Carson tradutora de Antígona. Ela inova com a persona muta Nick fazendo medições de fato em cena, testemunha ininterrupta de tudo que se passa no palco. Nada mais se sabe desse homem além do apelido (nickname, em inglês) de um Nicholas qualquer, sufixado ao nome da protagonista. Nomes importam para Carson. O que fazer, então, das quatro letras de “nick” para que não se perca a palavra no silêncio? Nick é o grito mudo da tradução de Carson. O onipresente Nick mede distâncias e pessoas, como se vê na leitura dramatizada com a própria Carson no papel coletivo do coro de anciãos tebanos. Nick é também o momento oportuno, a ocasião exata, a hora H: “the nick of time”. Nessa fenda espaço-temporal, a tradutora se assume dramaturga.
Renata Cazarini de Freitas
Professora de Latim e Literatura Latina na Universidade Federal Fluminense (UFF)
Sobre A autorA
Anne Carson é poeta, ensaísta, tradutora, professora canadense e especialista em literatura grega clássica e helênica. Deu aulas nas Universidade McGill, Michigan e Princeton. Em 1986, publicou “Eros, o doce-amargo”, seu primeiro livro de crítica literária. Foi a primeira mulher a ganhar o T.S. Eliot Prize, em 2002, pelo livro “A beleza do marido”. Ambos os livros foram lançados pela Bazar do Tempo no Brasil. Carson também traduziu poemas de Safo e peças teatrais de Eurípedes e Sófocles. Escreveu livros de poesia e ensaios, entre eles, já publicados no Brasil, “O método Albertine”, “Falas curtas” e “Autobiografia do vermelho”.
