Livro do Mês

O LADO DE lÁ

Paloma vidal

 

Numa mansão de veraneio em Punta del Este, uma menina uruguaia vive nos fundos da casa onde a tia trabalha como empregada doméstica. Enquanto observa de longe o luxo dos proprietários brasileiros, ela passa os dias ao lado da piscina escura e hipnótica, sonhando com o Brasil das novelas e das praias infinitas.

Seu único companheiro é um cachorro, testemunha e participante dos acontecimentos que se desenrolam na casa: visitantes abastados, rituais de verão e corpos bronzeados compõem um universo suspenso. A chegada de novos convidados rompe o delicado equilíbrio deste mundo, desencadeando uma espiral de tensão e violência.

Com humor sombrio e escrita precisa, que mescla o português e o espanhol, Paloma Vidal constrói um romance sobre infância, desejo e desigualdade na fronteira ambígua entre Brasil e Uruguai, fazendo emergir, da escuridão da piscina, uma história ao mesmo tempo sinistra e mágica.

“Através de uma linguagem ágil e minimalista, que conversa com o teatro e a poesia, Paloma Vidal constrói uma sátira da nossa elite que toca, com delicadeza, os lados obscuros da existência.”

Tatiana Salem Levy

“Em O lado de lá, lutam e dançam as consciências, os pontos de vista, as classes, os idiomas. O romance nos magnetiza — como a piscina negra magnetiza a menina protagonista — e não nos solta, mesmo depois que terminamos de ler.”

Laura Wittner

Texto de orelha

Em O lado de lá há um elenco de personagens sem nome. A menina, o cachorro, a tia, a outra menina. Mas também — do outro lado do cenário —, o convidado, a mulher do convidado, o Padrinho, os donos: o grupo de veranistas brasileiros que passam os dias numa mansão em Punta del Este, Uruguai. Há na casa uma piscina preta, uma TV ligada que transmite uma novela em português, lençóis brancos de algodão egípcio, entardeceres de céu violeta, há brincos, colares, sandálias. Há brilho. Mas há uma anomalia: um exemplar do livro Os miseráveis, de Victor Hugo, que passará de umas mãos a um focinho, da ficção à alegoria, nas páginas deste romance que é também um entrelaçamento de cenas em que personagens principais e secundários, humanos e não humanos, poderosos e subalternos, brasileiros e uruguaios, “eles” e “os outros”, miseráveis na acepção de marginalidade e miseráveis na acepção de canalhice, disputarão o foco. Não há, no entanto, nem por um instante, maniqueísmo nestas páginas. Com suas perninhas finas na água, a menina deixa os pensamentos correrem e elabora finais felizes. Quando ninguém a vê, senta-se na borda da piscina e observa o fundo escuro, uma espécie de Aleph aquático onde imagina estar a língua portuguesa que ela pode resgatar para a vida que deseja. Esse fundo escuro será um ímã e um precipício. Há um vaivém constante entre a penumbra e o visível, entre uma língua e outra, entre o olhar do cachorro e o da menina, entre uma menina e outra, entre o primeiro e o segundo ato, entre o fora e o dentro, entre a farsa e a tragédia. A menina e o cachorro disputam o ponto de vista do relato. Há momentos em que são quase uma unidade, há uma simbiose; há momentos em que suas perspectivas divergem. Mas sempre, sempre, estão atentos um ao outro. Menina e cachorro, cachorro e menina. São corpos que carregam consigo o mesmo deslocamento. Corpos que sabem que, para levar a cena adiante e se salvar, só lhes resta agir, tornando-se protagonistas. Erguer a cabeça das vidas alheias para voltar a incliná-la sobre sua própria vida. No entanto, nesta história, que progride dramaticamente, faltam partes. E a menina sabe. Sabe que a outra menina, aquela que desde a opacidade lança faíscas, também exige seu lugar. E é a busca dessas partes ausentes que mobilizará cada fala, cada movimento cênico, cada ato de uma “língua louca”, até cair o pano.

Alejandra Costamagna

Sobre A autorA

Paloma Vidal nasceu em 1975, em Buenos Aires, Argentina, e ainda criança se mudou para o Brasil. É escritora, crítica literária, tradutora e professora da Universidade Federal de São Paulo. É autora de livros de contos, poesia, teatro, ensaio e romances, escrevendo em português e em espanhol. Entre eles estão Mais ao sul (2008), Algum lugar (2009), Mar azul (2012), Pré-história (2020), Não escrever [com Roland Barthes] (2023), e Lugares onde eu não estou (2024). Sua obra foi publicada em países como Argentina, Chile, Espanha, França e Estados Unidos.